Análise: Proibição da Pedra Artificial na Austrália

Autor: Bruno Pellizzetti

24 de outubro de 2025

Trabalhador utilizando máscara e óculos com poeira de pedra artificial em volta

Análise: Proibição da Pedra Artificial na Austrália

Uma das preocupações sobre a saúde do trabalhador são os elementos extremamente nocivos que podem comprometer não só a sua saúde básica, mas trazer elementos cancerígenos para sua vida, sendo considerado como um elemento nocivo que traz a concessão da Aposentadoria Especial.

E considerando isso, uma notícia que me chamou a atenção foi a proibição da pedra artificial na Austrália, que se tornou o primeiro país do mundo a proibir o uso dessa matéria em novos projetos, tudo focado na saúde do trabalhador.

O Brasil reconhece o risco da silicose e possui regulamentações para mitigação (trabalho a úmido), mas está longe de uma proibição.

A situação é mais crítica na indústria de pedras naturais, especialmente no Espírito Santo, onde há denúncias de negligência e falta de fiscalização. O foco no Brasil parece ser mais na aplicação das normas existentes do que na proibição de materiais.

Documento alerta para risco de silicose em trabalhadores de pedras artificiais

No momento, a investigação sobre a saúde do trabalhador deve ocorrer caso a caso, devendo o trabalhador e seu advogado estarem atentos aos meios de prova disponíveis para comprovar uma doença do trabalho ou uma aposentadoria especial.

Confira mais sobre a silicose em trabalhadores de pedras artificiais ao redor do mundo.

Notícia Original (Dezembro 2023)

Fatos Principais:

  • Data da proibição: 1º de julho de 2024
  • Primeiro país: Austrália se tornou o primeiro país do mundo a proibir pedra artificial
  • Material: Pedra artificial (engineered stone/agglomerated stone) - feita com pedra triturada e resina

Riscos à Saúde:

  • Doença: Silicose - doença pulmonar causada por partículas finas de sílica
  • Sintomas: Falta de ar, tosse, fraqueza e fadiga
  • Gravidade: Condição potencialmente fatal, chamada de "amianto dos anos 2020"
  • Afetados: Principalmente trabalhadores jovens (maioria com menos de 35 anos)

Evidências Científicas:

  • Relatório da Safe Work Australia concluiu que não há nível seguro de sílica na pedra artificial
  • Trabalhadores com pedra artificial estavam super-representados nos casos de silicose
  • Diagnósticos em idades muito mais jovens comparado a outras indústrias
  • Risco distinto da pedra natural devido à composição física e química

Resposta da Indústria:

  • Caesarstone: Discordou da decisão, mas comprometeu-se a fornecer produtos alternativos
  • Ikea e Bunnings: Já haviam se comprometido a eliminar o material gradualmente

Detalhes da Proibição:

  • Aplica-se à fabricação, fornecimento, processamento e instalação
  • Não se aplica à remoção, reparo, descarte ou modificações menores
  • Possibilidade de isenções futuras para produtos com "evidência convincente" de segurança

Atualizações Científicas (2024-2025)

Comprovação de Carcinogenicidade:

  • Estudo ACS Omega (Dezembro 2024): Confirmou que a pedra artificial contém quartzo (15-60%) e cristobalita (10-50%), ambos carcinógenos do Grupo 1 segundo a IARC
  • Nanopartículas: 70% da massa de partículas sub-100nm é sílica cristalina, representando 4-24% da área superficial total depositada nos pulmões
  • Evidência científica consolidada: Múltiplos estudos confirmam que não há nível seguro de exposição à sílica na pedra artificial

Situação nos Estados Unidos:

  • Califórnia: Implementou regulamentações de emergência em dezembro de 2023 proibindo o corte seco da pedra artificial
  • Regulamentações permanentes: Tornaram-se permanentes em fevereiro de 2025
  • Casos crescentes: Califórnia enfrenta uma crise crescente de silicose entre trabalhadores
  • Decisões judiciais: Em agosto de 2024, júri da Califórnia concedeu US$ 52,4 milhões em indenização no caso Gustavo Reyes Gonzalez vs. Caesarstone
  • Posição atual: Cal/OSHA rejeitou proposta de proibição total, optando por regulamentações mais rigorosas

Situação no Reino Unido:

  • Primeiros casos: Primeiro caso no Reino Unido identificado em 2023
  • Crescimento: Aumento subsequente de casos documentados
  • Estudo britânico: Documentados os primeiros 8 casos no Reino Unido - todos homens, idade média de 34 anos, um já faleceu
  • Pressão médica: Dr. Jo Feary (Royal Brompton Hospital) e outros especialistas pedem ação urgente
  • Posição oficial: Health and Safety Executive está "considerando opções para futuras intervenções"

Situação na Nova Zelândia:

  • Campanha ativa: NZCTU (sindicatos) lançaram campanha "Ban Engineered Stone Now" em abril de 2025
  • Posição: "Austrália liderou o mundo sendo o primeiro país a proteger trabalhadores proibindo pedra artificial"
  • Argumento: "Pedra artificial não é um produto de construção essencial; é uma escolha cosmética e existem muitas alternativas seguras"

Situação no Canadá:

  • Ontário: Governo não introduziu nenhuma ação regulatória nova até outubro de 2024
  • Reconhecimento: Governo reconhece como "preocupação mundial crescente"
  • Regulamentações existentes: Limite de exposição ocupacional de 0.1 mg/m³ (quartzo)
  • Pressão para mudanças: Pedidos para reduzir limite para 0.025 mg/m³ (já adotado pela maioria das outras províncias canadenses)
  • Posição atual: "Parece improvável que uma proibição seja implementada no Canadá em breve"

Situação na Europa:

  • Pesquisadores pedem proibição: Editorial na revista "Occupational & Environmental Medicine" (agosto 2024) pede que Reino Unido e União Europeia sigam exemplo australiano
  • 11 casos no Reino Unido: Já documentados casos de silicose por pedra artificial
  • Mercado global: Estimado em US$ 25 bilhões anuais
  • Proposta de proibição faseada: Inicialmente produtos com mais de 30% de sílica cristalina, depois mais de 5% após 5 anos
  • Resistência: Sociedade Britânica de Higiene Ocupacional (BOHS) sugere que riscos podem ser controlados com boas práticas
  • Holanda: Conselho de Saúde publicou relatório sobre sílica cristalina respirável (setembro 2024)

Resumo Global:

  • Austrália: PRIMEIRA E ÚNICA com proibição total (julho 2024)
  • Nova Zelândia: Campanha ativa dos sindicatos pedindo proibição
  • Reino Unido: Pressão médica e científica, mas sem ação governamental
  • Estados Unidos: Regulamentações mais rigorosas (Califórnia), mas sem proibição total
  • Canadá: Sem ação regulatória nova, improvável proibição em breve
  • Europa: Pressão científica, mas sem ação governamental coordenada

Situação no Brasil

Regulamentação e Posicionamento Oficial:

  • Alerta da Fundacentro (Outubro 2024): A Fundacentro, órgão do governo brasileiro, em conjunto com a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT), emitiu um alerta sobre o risco de silicose em trabalhadores de pedras artificiais, destacando o ressurgimento de casos graves.
  • Portaria 43/2008: O Ministério do Trabalho e Emprego estabeleceu a obrigatoriedade do trabalho a úmido no beneficiamento de mármores e granitos, visando reduzir a exposição à poeira de sílica.
  • Programa Nacional de Eliminação de Silicose (PNES): Coordenado pela Fundacentro até 2019, o programa buscava combater a silicose no país.
  • Posição atual: Embora haja reconhecimento do risco e regulamentação para trabalho a úmido, não há movimentação para uma proibição total da pedra artificial no Brasil, como na Austrália.

Casos e Denúncias:

  • Uso crescente: O uso de pedras artificiais no Brasil tem aumentado gradativamente, embora o país tenha grande disponibilidade de pedras naturais.

  • Documentário "Abaixo da Superfície": Lançado em outubro de 2024, o documentário da Internacional de Trabalhadores da Construção e da Madeira (ICM) denuncia a realidade de trabalhadores da indústria de pedras (naturais) no Espírito Santo, com relatos de ex-operadores, médicos e sindicalistas sobre o risco de silicose e a negligência das empresas.

  • Dados do Espírito Santo: Entre 2012 e 2019, o setor de mármore e granito foi a atividade econômica mais letal no estado, com o maior número de notificações de óbitos por acidentes e doenças relacionadas ao trabalho.

  • Falta de fiscalização: O documentário denuncia a falta de fiscalização, o desrespeito às normas de segurança, a falsificação de exames médicos e a falta de fornecimento de equipamentos de proteção individual.

Análise: Proibição da Pedra Artificial na Austrália