Análise: Proibição da Pedra Artificial na Austrália
Uma das preocupações sobre a saúde do trabalhador são os elementos extremamente nocivos que podem comprometer não só a sua saúde básica, mas trazer elementos cancerígenos para sua vida, sendo considerado como um elemento nocivo que traz a concessão da Aposentadoria Especial.
E considerando isso, uma notícia que me chamou a atenção foi a proibição da pedra artificial na Austrália, que se tornou o primeiro país do mundo a proibir o uso dessa matéria em novos projetos, tudo focado na saúde do trabalhador.
O Brasil reconhece o risco da silicose e possui regulamentações para mitigação (trabalho a úmido), mas está longe de uma proibição.
A situação é mais crítica na indústria de pedras naturais, especialmente no Espírito Santo, onde há denúncias de negligência e falta de fiscalização. O foco no Brasil parece ser mais na aplicação das normas existentes do que na proibição de materiais.
Documento alerta para risco de silicose em trabalhadores de pedras artificiais
No momento, a investigação sobre a saúde do trabalhador deve ocorrer caso a caso, devendo o trabalhador e seu advogado estarem atentos aos meios de prova disponíveis para comprovar uma doença do trabalho ou uma aposentadoria especial.
Confira mais sobre a silicose em trabalhadores de pedras artificiais ao redor do mundo.
Notícia Original (Dezembro 2023)
Fatos Principais:
- Data da proibição: 1º de julho de 2024
- Primeiro país: Austrália se tornou o primeiro país do mundo a proibir pedra artificial
- Material: Pedra artificial (engineered stone/agglomerated stone) - feita com pedra triturada e resina
Riscos à Saúde:
- Doença: Silicose - doença pulmonar causada por partículas finas de sílica
- Sintomas: Falta de ar, tosse, fraqueza e fadiga
- Gravidade: Condição potencialmente fatal, chamada de "amianto dos anos 2020"
- Afetados: Principalmente trabalhadores jovens (maioria com menos de 35 anos)
Evidências Científicas:
- Relatório da Safe Work Australia concluiu que não há nível seguro de sílica na pedra artificial
- Trabalhadores com pedra artificial estavam super-representados nos casos de silicose
- Diagnósticos em idades muito mais jovens comparado a outras indústrias
- Risco distinto da pedra natural devido à composição física e química
Resposta da Indústria:
- Caesarstone: Discordou da decisão, mas comprometeu-se a fornecer produtos alternativos
- Ikea e Bunnings: Já haviam se comprometido a eliminar o material gradualmente
Detalhes da Proibição:
- Aplica-se à fabricação, fornecimento, processamento e instalação
- Não se aplica à remoção, reparo, descarte ou modificações menores
- Possibilidade de isenções futuras para produtos com "evidência convincente" de segurança
Atualizações Científicas (2024-2025)
Comprovação de Carcinogenicidade:
- Estudo ACS Omega (Dezembro 2024): Confirmou que a pedra artificial contém quartzo (15-60%) e cristobalita (10-50%), ambos carcinógenos do Grupo 1 segundo a IARC
- Nanopartículas: 70% da massa de partículas sub-100nm é sílica cristalina, representando 4-24% da área superficial total depositada nos pulmões
- Evidência científica consolidada: Múltiplos estudos confirmam que não há nível seguro de exposição à sílica na pedra artificial
Situação nos Estados Unidos:
- Califórnia: Implementou regulamentações de emergência em dezembro de 2023 proibindo o corte seco da pedra artificial
- Regulamentações permanentes: Tornaram-se permanentes em fevereiro de 2025
- Casos crescentes: Califórnia enfrenta uma crise crescente de silicose entre trabalhadores
- Decisões judiciais: Em agosto de 2024, júri da Califórnia concedeu US$ 52,4 milhões em indenização no caso Gustavo Reyes Gonzalez vs. Caesarstone
- Posição atual: Cal/OSHA rejeitou proposta de proibição total, optando por regulamentações mais rigorosas
Situação no Reino Unido:
- Primeiros casos: Primeiro caso no Reino Unido identificado em 2023
- Crescimento: Aumento subsequente de casos documentados
- Estudo britânico: Documentados os primeiros 8 casos no Reino Unido - todos homens, idade média de 34 anos, um já faleceu
- Pressão médica: Dr. Jo Feary (Royal Brompton Hospital) e outros especialistas pedem ação urgente
- Posição oficial: Health and Safety Executive está "considerando opções para futuras intervenções"
Situação na Nova Zelândia:
- Campanha ativa: NZCTU (sindicatos) lançaram campanha "Ban Engineered Stone Now" em abril de 2025
- Posição: "Austrália liderou o mundo sendo o primeiro país a proteger trabalhadores proibindo pedra artificial"
- Argumento: "Pedra artificial não é um produto de construção essencial; é uma escolha cosmética e existem muitas alternativas seguras"
Situação no Canadá:
- Ontário: Governo não introduziu nenhuma ação regulatória nova até outubro de 2024
- Reconhecimento: Governo reconhece como "preocupação mundial crescente"
- Regulamentações existentes: Limite de exposição ocupacional de 0.1 mg/m³ (quartzo)
- Pressão para mudanças: Pedidos para reduzir limite para 0.025 mg/m³ (já adotado pela maioria das outras províncias canadenses)
- Posição atual: "Parece improvável que uma proibição seja implementada no Canadá em breve"
Situação na Europa:
- Pesquisadores pedem proibição: Editorial na revista "Occupational & Environmental Medicine" (agosto 2024) pede que Reino Unido e União Europeia sigam exemplo australiano
- 11 casos no Reino Unido: Já documentados casos de silicose por pedra artificial
- Mercado global: Estimado em US$ 25 bilhões anuais
- Proposta de proibição faseada: Inicialmente produtos com mais de 30% de sílica cristalina, depois mais de 5% após 5 anos
- Resistência: Sociedade Britânica de Higiene Ocupacional (BOHS) sugere que riscos podem ser controlados com boas práticas
- Holanda: Conselho de Saúde publicou relatório sobre sílica cristalina respirável (setembro 2024)
Resumo Global:
- Austrália: PRIMEIRA E ÚNICA com proibição total (julho 2024)
- Nova Zelândia: Campanha ativa dos sindicatos pedindo proibição
- Reino Unido: Pressão médica e científica, mas sem ação governamental
- Estados Unidos: Regulamentações mais rigorosas (Califórnia), mas sem proibição total
- Canadá: Sem ação regulatória nova, improvável proibição em breve
- Europa: Pressão científica, mas sem ação governamental coordenada
Situação no Brasil
Regulamentação e Posicionamento Oficial:
- Alerta da Fundacentro (Outubro 2024): A Fundacentro, órgão do governo brasileiro, em conjunto com a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT), emitiu um alerta sobre o risco de silicose em trabalhadores de pedras artificiais, destacando o ressurgimento de casos graves.
- Portaria 43/2008: O Ministério do Trabalho e Emprego estabeleceu a obrigatoriedade do trabalho a úmido no beneficiamento de mármores e granitos, visando reduzir a exposição à poeira de sílica.
- Programa Nacional de Eliminação de Silicose (PNES): Coordenado pela Fundacentro até 2019, o programa buscava combater a silicose no país.
- Posição atual: Embora haja reconhecimento do risco e regulamentação para trabalho a úmido, não há movimentação para uma proibição total da pedra artificial no Brasil, como na Austrália.
Casos e Denúncias:
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Uso crescente: O uso de pedras artificiais no Brasil tem aumentado gradativamente, embora o país tenha grande disponibilidade de pedras naturais.
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Documentário "Abaixo da Superfície": Lançado em outubro de 2024, o documentário da Internacional de Trabalhadores da Construção e da Madeira (ICM) denuncia a realidade de trabalhadores da indústria de pedras (naturais) no Espírito Santo, com relatos de ex-operadores, médicos e sindicalistas sobre o risco de silicose e a negligência das empresas.
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Dados do Espírito Santo: Entre 2012 e 2019, o setor de mármore e granito foi a atividade econômica mais letal no estado, com o maior número de notificações de óbitos por acidentes e doenças relacionadas ao trabalho.
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Falta de fiscalização: O documentário denuncia a falta de fiscalização, o desrespeito às normas de segurança, a falsificação de exames médicos e a falta de fornecimento de equipamentos de proteção individual.