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Aposentadoria Especial

Eletricidade e tempo especial: por que o Tema 1209 não resolve o caso do eletricista

Por Bruno PellizzettiAtualizado em 30 de outubro de 20266 min de leitura

Ilustração em aquarela de eletricitário trabalhando junto a uma rede elétrica — Tema 534 e Tema 1209

Vigilância e eletricidade podem aparecer em processos com a palavra “periculosidade”. Isso não significa que discutam o mesmo risco ou que devam receber automaticamente a mesma resposta previdenciária.

O Tema 1209 do STF examinou a atividade de vigilante. A análise de exposição à eletricidade exige identificar o agente, as tarefas, os períodos e o fundamento do pedido. Dois acórdãos do TRF4, julgados em agosto de 2026, ajudam a fazer essa separação sem transformar todo eletricista em beneficiário automático de tempo especial.

O que o Tema 1209 efetivamente trata

O STF estabeleceu que a atividade de vigilante, com ou sem arma de fogo, não se caracteriza como especial para a aposentadoria referida no artigo 201, § 1º, da Constituição. O enunciado se refere a essa atividade e à controvérsia julgada.

Não é adequado substituir “vigilante” por “qualquer trabalhador exposto a perigo” e aplicar o resultado sem confrontar o caso. A distinção exige leitura do objeto do precedente e da situação concreta. Também não basta afastar o Tema 1209 para demonstrar que o pedido do eletricista deve ser concedido: ainda será necessário comprovar os requisitos de sua própria tese.

A nota técnica do TRF5 sobre o dessobrestamento no Tema 1209 é uma fonte institucional útil para examinar o alcance do tema e a gestão dos processos suspensos. Não substitui a decisão do juízo em cada processo.

O que os dois casos do TRF4 acrescentam

As Apelações 5066527-65.2022.4.04.7100 e 5001856-72.2024.4.04.7129 foram julgadas em 20/08/2026 pela 5ª Turma, sob relatoria de Graziela Soares. Os acórdãos trataram de eletricidade e rejeitaram o uso do Tema 1209 como razão para manter a suspensão.

A leitura deve separar duas questões. Uma é processual: se existe fundamento para paralisar o caso. Outra é de mérito: se o trabalhador comprovou exposição apta ao reconhecimento da especialidade. Um pedido de prosseguimento não pode ser apresentado como se dispensasse PPP, laudo ou análise dos períodos.

Esses julgamentos fornecem exemplos concretos de distinção. Não são um novo tema vinculante nem autorizam afirmar que nenhum processo fora da vigilância poderá discutir aspectos do precedente. A identificação do objeto do pedido continua sendo a parte central da argumentação.

O Tema 534 tem outra função

O Tema 534 do STJ trata do caráter exemplificativo das normas regulamentares sobre agentes e atividades nocivos. Seu paradigma envolve exposição à eletricidade e a possibilidade de reconhecimento mesmo depois da alteração regulamentar de 1997.

É esse fundamento, combinado com a prova técnica e com as normas pertinentes ao período, que sustenta a discussão própria do eletricitário. O fato de a eletricidade não constar de um regulamento posterior não encerra, por si só, a análise judicial da especialidade.

Também seria excessivo afirmar que basta escrever uma tensão no PPP. A documentação deve permitir compreender a exposição e sua relação com a atividade. O parâmetro de tensão superior a 250 volts é relevante na jurisprudência examinada, mas não substitui a demonstração das tarefas e das condições de trabalho.

Da mesma maneira, adicional de periculosidade trabalhista e enquadramento previdenciário não são benefícios idênticos. A documentação trabalhista pode contribuir para a prova, sem produzir automaticamente todos os efeitos na aposentadoria.

Cargo, risco e prova são três campos diferentes

O cargo indica a função formal. O risco descreve a condição que se pretende demonstrar. A prova permite relacionar uma coisa à outra durante o período discutido.

Um título profissional amplo pode reunir rotinas bastante distintas: manutenção de equipamentos, trabalho em subestação, atividade administrativa ou inspeção em instalações. Não se deve presumir exposição idêntica para todo o vínculo sem examinar mudanças de setor ou função.

Por isso, o PPP deve ser confrontado com os documentos ambientais e com a descrição real das tarefas. A avaliação de risco em um ambiente não pode ser automaticamente importada para outro apenas porque os trabalhadores têm cargos semelhantes.

Quando há divergência, a providência deve procurar o esclarecimento técnico que falta. Copiar a ementa de um caso favorável não preenche lacunas sobre onde, como e quando a pessoa esteve exposta.

Rede desligada e equipamento de proteção exigem análise concreta

A discussão sobre instalações desenergizadas não se resolve apenas pela palavra “desligada”. Podem ser relevantes o risco de energização acidental, a proximidade de partes energizadas e os procedimentos executados. Tudo isso precisa estar relacionado à rotina demonstrada, não a um cenário hipotético de acidente.

O EPI também deve ser analisado em função do risco. A existência de equipamento não elimina automaticamente toda possibilidade de acidente elétrico. Por outro lado, não convém transformar essa observação em dispensa universal de prova sobre as condições de trabalho.

O Tema 1090 do STJ preserva exceções ao efeito, em princípio, da informação de EPI eficaz no PPP. Fora dessas exceções, sua tese atribui à parte autora a demonstração de inadequações ou falhas relevantes. A análise deve identificar por que uma determinada hipótese se enquadra na exceção invocada, sem inverter o ônus probatório de maneira genérica.

O que conferir em um pedido de prosseguimento

Se o processo foi suspenso por referência ao Tema 1209, a primeira providência é ler a decisão de suspensão e identificar exatamente a controvérsia. É possível que o pedido reúna mais de uma atividade ou fundamento; isso precisa ser separado.

Na fundamentação, interessa demonstrar que o intervalo discutido corresponde à exposição elétrica e indicar quais documentos sustentam essa caracterização. Em seguida, deve-se explicar a pertinência do Tema 534 e a diferença em relação ao risco próprio da vigilância.

O estágio processual também importa. O prosseguimento pode conduzir à instrução, à perícia ou ao julgamento, conforme as pendências existentes. Não equivale a requerer implantação imediata de um benefício sem análise dos outros requisitos.

Reconhecimento e conversão não são a mesma operação

Mesmo depois de reconhecer determinada exposição, ainda é preciso definir como o período será utilizado. A conversão de tempo especial em comum no RGPS tem o limite da reforma de 2019. Não se multiplica trabalho posterior ao marco legal simplesmente porque a exposição elétrica foi demonstrada.

O cálculo, a modalidade de aposentadoria e os requisitos devem ser conferidos separadamente. Nossa análise sobre conversão e EC 103 detalha essa distinção. Se o problema estiver na informação do formulário, veja também retificação do PPP.

A utilidade dos julgados de agosto está em mostrar que a classificação do risco precisa ser precisa. “Periculosidade” não é uma conclusão pronta. O caso do eletricista deve ser examinado pelo que ele efetivamente discute, com a prova e o regime jurídico correspondentes.

Como esta pesquisa foi feita

Os dois processos foram reconsultados pelo JurCrawler em 25/09/2026, com acesso aos documentos oficiais do TRF4. O JurCrawler é uma ferramenta associada ao projeto ProcStudio, utilizada para localizar jurisprudência e organizar a conferência dos processos. O crédito identifica o instrumento de pesquisa; não atribui à ferramenta a autoria do julgamento nem uma garantia de resultado jurídico.

Documentos oficiais consultados

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